Darwin e os esqueletos da humanidade
Não é bonito nem excitante descrever uma cronologia do debate entre o Criacionismo e o Evolucionismo. Que conforto poderíamos retirar da frieza das datas? É, contudo, certo qual das duas teses chegou primeiro. Se a antiguidade é um posto, então sejamos no mínimo benevolentes com as pretensões dos criacionistas. Eles andam cá desde o início.
A autoridade que me compete para a escrita destas linhas é absolutamente questionável. Sou um cristão evangélico baptista amamentado na crença do relato do Génesis. Os leitores sabem ao que vão. Devo todavia, e a bem de uma tímida salvaguarda da minha posição, informar que me formei na Faculdade de Ciências Socias e Humanas de Lisboa (aquela da reluzente paliçada metálica da Avenida de Berna). Como poderá ser observado mais adiante, este facto biográfico essencial na minha (de)formação torna-se precioso para os parágrafos que seguem.
A Europa sente em relação à América um vazio do tamanho de Deus. Só esta assunção explica a surpresa com que o Velho Continente viu ressurgir o debate sobre as origens da vida. Se é certo que as debilidades do Criacionismo passam tão somente pela sua necessidade de existir quanto movimento (o Criador deveria ser poupado do embaraço de ver o reconhecimento da sua criatividade dependente da defesa que as suas próprias criaturas lhe prestam), também é verdade que somente um francês demasiado adormecido à sensibilidade religiosa do país mais competente do mundo (os EUA, os EUA) pode admirar-se com o vigor académico do Design Inteligente. Este novo termo foi um passo, como o nome indica, inteligente. Até porque os leitores devem já saber que sustentar o Design Inteligente não é o mesmo que sustentar a interpretação científico-literal do relato do Génesis. Mas para isso terão de ir investigar no Google. Falta-me o vagar e o pernicioso conhecimento técnico para penetrar em semelhantes matérias. A minha abordagem, como qualquer protestante que se preze, é a do testemunho. Let me testify, brothers and sisters.
Uma das primeiras acusações que devo apontar a Darwin é o facto de ter abandonado a Teologia a favor da Botânica. Coloca-o na família dos ex-seminaristas, uma espécie que nunca conheceu evolução. Pessoas que ficam a meio da sua vocação deixam sempre coisas por arrumar nos seus futuros. Um religioso que abandona a Teologia tem na maior parte das vezes um motivo sensual forte. No caso de Darwin foram os besouros. Abandonar a Teologia por causa de uma mulher suscita solidariedade. O que diremos em relação ao abandono da Teologia por causa de insectos? Mesmo que se tenha verificado grande margem de progressão no objecto de estudo de Darwin, o critério rastejante da sua permuta académica é incontornável. Da sacristia para a bicharada, portanto. É numa viagem a bordo de um barco com nome de cão, o Beagle, que se alcatroa a satânica estrada de Damasco de Charles. Com Charles Darwin embarcou o Ocidente na pronta aceitação dos esqueletos da humanidade. A condição em que Darwin nos deixa é, novamente, canina. O que nos legou ele? Ossos.
A partir desse momento sob a teoria da evolução pesou explicar como é que um macaco se faz um homenzinho. Tarefa que cumpriu com bastante competência. A ponto de alguns séculos depois o Ocidente aceitar quase consensualmente a genealogia simiesca. O problema são as aldeias gaulesas. A resistência criacionista, deveras amachucada por um Século XIX severo com o pensamento religioso, foi reagregando-se. Tirando cursos superiores e apanhando as pontas soltas do discipulado de Darwin. Todo o Século XX foi empregado a diversificar hermenêuticas ao texto bíblico e lendo as instruções de uma coisa qualquer importante para o tema que tem a ver com o carbono. A década de oitenta, mas sobretudo a de noventa, traz um novo plantel à equipa. E com orçamento reforçado (há quem acuse que os avanços criacionistas resultam de um financiamento suspeito por parte dos sectores americanos mais conservadores).
Já se tornou evidente uma aversão por Darwin nestas linhas. Corrige-se. Por darwinistas. Esclarece-se, todavia, que o criacionismo do autor deste texto é objector de consciência. Não entra em guerras. Parece-me desagradável levar preocupações científicas ao texto bíblico. Se quisermos ler a Bíblia como o National Geographic nada nos impede de qualquer dia a lermos como o livro de Pantagruel. Uma má receita. Isto não significa, de qualquer modo, que não possa haver o índice de consistência científica pelo qual os criacionistas puros e duros (os que harmonizam os sete dias da Criação com os eventos factuais da origem do mundo) se batem. Sou a pessoa errada para defender com competência o Criacionismo na imprensa respeitável nacional. Logo a pessoa acertada para vos escrever este texto.
É aqui que surge a importância do meu passado académico. Trouxe da Universidade Nova de Lisboa uma licenciatura da qual herdei alguma indiferença perante as habilitações filosóficas do pensamento científico. Pacheco Pereira tem razão quando se queixa da preguiça da luso-intelectualidade em relação ao domínio dos conhecimentos exactos. A culpa é dos Eduardos Prados Coelhos dos nossos quintais académicos (curiosamente um dos meus professores preferidos). Numa segunda metade do Século XX ressacada das excentricidades da Ciência tornou-se confortável uma dose mínima de moleza pós-moderna. Galileu podia ter toda a razão mas não é por isso que deixa de ser um chato. O que se perde em rigor ganha-se em joie de vivre.
Um dos aspectos mais débeis do Evolucionismo é redundar apenas em pertinência. Rejeita uma ideia de intencionalidade biológica em prol de funcionalidade física. O Universo torna-se uma frase em que o sujeito é devorado pelo complemento directo. Esqueceram-se que no Princípio era o Verbo. Não dá para queimar etapas. Nesta gramática canibal os fenómenos prolongam-se sem afectos. Os darwinistas trocaram o velho barbudo que criou amorosamente o Planeta Azul por um grande acaso com tiques de governanta alemã. Mas o impulso primordial para a sobrevivência não subsiste hoje sem dificuldade. A sustentabilidade do enredo é precária e não cria empatia nos leitores. Em último reduto o antagonismo entre o Criacionismo e Evolucionismo resolver-se-á através de uma questão de critério na escolha de narrativas. Que tipo de civilização desfralda com orgulho a bandeira de uma grande explosão aleatória como acontecimento inaugural? Não é bonito tratar o cosmos como o rebentamento de uma bilha de gás.
Aos darwinistas não convém o optimismo. O planeta vai para o maneta por isso Deus deve ser despedido por incompetência grosseira. Quão mais ateu o espírito mais ecologista será. Só quem já desistiu de salvar a sua alma pode ocupar-se da missão de salvar o mundo. A estratégia torna-se simples: a certeza do esgotamento dos recursos naturais pressupõe a ineficácia da intervenção divina. Como quem diz, já ninguém tem mão nisto, nem mesmo Ele. Logo a responsabilidade permanece em exclusivo no discernimento humano e por isso o futuro é negro. A menos que evoluamos. O pessimismo biológico dos darwinistas torna-se o pretexto para colocar sobre os ombros dos homens a hipótese de uma redenção cósmica. E alcançar a desforra final sobre o monopólio celeste da Salvação.
Os cristãos deviam pôr água na fervura. Mas pressionados pela necessidade de ser bons mordomos da Criação têm esquecido que, por muitas imagens de catástrofes naturais que coleccione, ainda não é Al Gore o sustentador da esfera terrestre. Uma das falhas tem sido deixar na ribalta apenas os criacionistas a falar sobre o Princípio. Torna-se imperativo equilibrar a situação através de bons cristãos a falar sobre o Fim. O bom cristão deverá relembrar que é Deus quem ainda manda na geringonça. E que ela só avaria se Ele permitir. Na verdade e apesar de na aparência debatermos as bases dos primeiros eventos, o que todos desejamos é vender as nossas teses sobre o Apocalipse. A única concórdia é sobre a necessidade de o guião colocar no último episódio muito pranto e muito ranger de dentes. Os fiéis pela via da impenitência dos pecadores, os darwinistas pela incontinência dos consumidores.
Os darwinistas arreliam-se. Com cada letra criacionista publicada, com cada dólar investido na defesa do Design Inteligente, com cada Liceu americano que ousa colocar o bom Charles lado a lado com o Bom Deus. Como contornar o facto que os darwinistas se têm tornado nas últimas décadas pessoas apreciavelmente desagradáveis? Até porque o único argumento filosófico que oferecem para o convívio humano é a sustentação de um equilíbrio mínimo na realpolitik que impeça o prematuro aniquilamento da raça. O darwinista é o que sobra de um Hobbes sem crença na Eternidade. A melhor pedagogia para os darwinistas não é sequer convertê-los ao cristianismo. Ensiná-los a divertir-se já seria óptimo. Descontrair. Respirar fundo. Enquanto há ar.
O darwinismo começa a soçobrar. Não é casual que nos últimos tempos o seu maior progresso seja apenas poético e uma tentativa de amenizar a frieza espiritual dos primatas. Falo do filme "King-Kong". A história de um macacão que se apaixona, o relato de um bruto que se surpreende perante a existência dos sentimentos, um símio e uma humana numa vertigem erótica sem viabilidade de prolongar a espécie. Precisamos de devolver o coração aos esqueletos da Humanidade.
A autoridade que me compete para a escrita destas linhas é absolutamente questionável. Sou um cristão evangélico baptista amamentado na crença do relato do Génesis. Os leitores sabem ao que vão. Devo todavia, e a bem de uma tímida salvaguarda da minha posição, informar que me formei na Faculdade de Ciências Socias e Humanas de Lisboa (aquela da reluzente paliçada metálica da Avenida de Berna). Como poderá ser observado mais adiante, este facto biográfico essencial na minha (de)formação torna-se precioso para os parágrafos que seguem.
A Europa sente em relação à América um vazio do tamanho de Deus. Só esta assunção explica a surpresa com que o Velho Continente viu ressurgir o debate sobre as origens da vida. Se é certo que as debilidades do Criacionismo passam tão somente pela sua necessidade de existir quanto movimento (o Criador deveria ser poupado do embaraço de ver o reconhecimento da sua criatividade dependente da defesa que as suas próprias criaturas lhe prestam), também é verdade que somente um francês demasiado adormecido à sensibilidade religiosa do país mais competente do mundo (os EUA, os EUA) pode admirar-se com o vigor académico do Design Inteligente. Este novo termo foi um passo, como o nome indica, inteligente. Até porque os leitores devem já saber que sustentar o Design Inteligente não é o mesmo que sustentar a interpretação científico-literal do relato do Génesis. Mas para isso terão de ir investigar no Google. Falta-me o vagar e o pernicioso conhecimento técnico para penetrar em semelhantes matérias. A minha abordagem, como qualquer protestante que se preze, é a do testemunho. Let me testify, brothers and sisters.
Uma das primeiras acusações que devo apontar a Darwin é o facto de ter abandonado a Teologia a favor da Botânica. Coloca-o na família dos ex-seminaristas, uma espécie que nunca conheceu evolução. Pessoas que ficam a meio da sua vocação deixam sempre coisas por arrumar nos seus futuros. Um religioso que abandona a Teologia tem na maior parte das vezes um motivo sensual forte. No caso de Darwin foram os besouros. Abandonar a Teologia por causa de uma mulher suscita solidariedade. O que diremos em relação ao abandono da Teologia por causa de insectos? Mesmo que se tenha verificado grande margem de progressão no objecto de estudo de Darwin, o critério rastejante da sua permuta académica é incontornável. Da sacristia para a bicharada, portanto. É numa viagem a bordo de um barco com nome de cão, o Beagle, que se alcatroa a satânica estrada de Damasco de Charles. Com Charles Darwin embarcou o Ocidente na pronta aceitação dos esqueletos da humanidade. A condição em que Darwin nos deixa é, novamente, canina. O que nos legou ele? Ossos.
A partir desse momento sob a teoria da evolução pesou explicar como é que um macaco se faz um homenzinho. Tarefa que cumpriu com bastante competência. A ponto de alguns séculos depois o Ocidente aceitar quase consensualmente a genealogia simiesca. O problema são as aldeias gaulesas. A resistência criacionista, deveras amachucada por um Século XIX severo com o pensamento religioso, foi reagregando-se. Tirando cursos superiores e apanhando as pontas soltas do discipulado de Darwin. Todo o Século XX foi empregado a diversificar hermenêuticas ao texto bíblico e lendo as instruções de uma coisa qualquer importante para o tema que tem a ver com o carbono. A década de oitenta, mas sobretudo a de noventa, traz um novo plantel à equipa. E com orçamento reforçado (há quem acuse que os avanços criacionistas resultam de um financiamento suspeito por parte dos sectores americanos mais conservadores).
Já se tornou evidente uma aversão por Darwin nestas linhas. Corrige-se. Por darwinistas. Esclarece-se, todavia, que o criacionismo do autor deste texto é objector de consciência. Não entra em guerras. Parece-me desagradável levar preocupações científicas ao texto bíblico. Se quisermos ler a Bíblia como o National Geographic nada nos impede de qualquer dia a lermos como o livro de Pantagruel. Uma má receita. Isto não significa, de qualquer modo, que não possa haver o índice de consistência científica pelo qual os criacionistas puros e duros (os que harmonizam os sete dias da Criação com os eventos factuais da origem do mundo) se batem. Sou a pessoa errada para defender com competência o Criacionismo na imprensa respeitável nacional. Logo a pessoa acertada para vos escrever este texto.
É aqui que surge a importância do meu passado académico. Trouxe da Universidade Nova de Lisboa uma licenciatura da qual herdei alguma indiferença perante as habilitações filosóficas do pensamento científico. Pacheco Pereira tem razão quando se queixa da preguiça da luso-intelectualidade em relação ao domínio dos conhecimentos exactos. A culpa é dos Eduardos Prados Coelhos dos nossos quintais académicos (curiosamente um dos meus professores preferidos). Numa segunda metade do Século XX ressacada das excentricidades da Ciência tornou-se confortável uma dose mínima de moleza pós-moderna. Galileu podia ter toda a razão mas não é por isso que deixa de ser um chato. O que se perde em rigor ganha-se em joie de vivre.
Um dos aspectos mais débeis do Evolucionismo é redundar apenas em pertinência. Rejeita uma ideia de intencionalidade biológica em prol de funcionalidade física. O Universo torna-se uma frase em que o sujeito é devorado pelo complemento directo. Esqueceram-se que no Princípio era o Verbo. Não dá para queimar etapas. Nesta gramática canibal os fenómenos prolongam-se sem afectos. Os darwinistas trocaram o velho barbudo que criou amorosamente o Planeta Azul por um grande acaso com tiques de governanta alemã. Mas o impulso primordial para a sobrevivência não subsiste hoje sem dificuldade. A sustentabilidade do enredo é precária e não cria empatia nos leitores. Em último reduto o antagonismo entre o Criacionismo e Evolucionismo resolver-se-á através de uma questão de critério na escolha de narrativas. Que tipo de civilização desfralda com orgulho a bandeira de uma grande explosão aleatória como acontecimento inaugural? Não é bonito tratar o cosmos como o rebentamento de uma bilha de gás.
Aos darwinistas não convém o optimismo. O planeta vai para o maneta por isso Deus deve ser despedido por incompetência grosseira. Quão mais ateu o espírito mais ecologista será. Só quem já desistiu de salvar a sua alma pode ocupar-se da missão de salvar o mundo. A estratégia torna-se simples: a certeza do esgotamento dos recursos naturais pressupõe a ineficácia da intervenção divina. Como quem diz, já ninguém tem mão nisto, nem mesmo Ele. Logo a responsabilidade permanece em exclusivo no discernimento humano e por isso o futuro é negro. A menos que evoluamos. O pessimismo biológico dos darwinistas torna-se o pretexto para colocar sobre os ombros dos homens a hipótese de uma redenção cósmica. E alcançar a desforra final sobre o monopólio celeste da Salvação.
Os cristãos deviam pôr água na fervura. Mas pressionados pela necessidade de ser bons mordomos da Criação têm esquecido que, por muitas imagens de catástrofes naturais que coleccione, ainda não é Al Gore o sustentador da esfera terrestre. Uma das falhas tem sido deixar na ribalta apenas os criacionistas a falar sobre o Princípio. Torna-se imperativo equilibrar a situação através de bons cristãos a falar sobre o Fim. O bom cristão deverá relembrar que é Deus quem ainda manda na geringonça. E que ela só avaria se Ele permitir. Na verdade e apesar de na aparência debatermos as bases dos primeiros eventos, o que todos desejamos é vender as nossas teses sobre o Apocalipse. A única concórdia é sobre a necessidade de o guião colocar no último episódio muito pranto e muito ranger de dentes. Os fiéis pela via da impenitência dos pecadores, os darwinistas pela incontinência dos consumidores.
Os darwinistas arreliam-se. Com cada letra criacionista publicada, com cada dólar investido na defesa do Design Inteligente, com cada Liceu americano que ousa colocar o bom Charles lado a lado com o Bom Deus. Como contornar o facto que os darwinistas se têm tornado nas últimas décadas pessoas apreciavelmente desagradáveis? Até porque o único argumento filosófico que oferecem para o convívio humano é a sustentação de um equilíbrio mínimo na realpolitik que impeça o prematuro aniquilamento da raça. O darwinista é o que sobra de um Hobbes sem crença na Eternidade. A melhor pedagogia para os darwinistas não é sequer convertê-los ao cristianismo. Ensiná-los a divertir-se já seria óptimo. Descontrair. Respirar fundo. Enquanto há ar.
O darwinismo começa a soçobrar. Não é casual que nos últimos tempos o seu maior progresso seja apenas poético e uma tentativa de amenizar a frieza espiritual dos primatas. Falo do filme "King-Kong". A história de um macacão que se apaixona, o relato de um bruto que se surpreende perante a existência dos sentimentos, um símio e uma humana numa vertigem erótica sem viabilidade de prolongar a espécie. Precisamos de devolver o coração aos esqueletos da Humanidade.
